MARVADA PINGA

Quando o assunto é bebida é comigo mesmo… Sim!!! desde que não seja alcoólica, pois é!! sou um péssimo bebedor, e não por religião ou algo assim, é porque realmente não tenho prazer nenhum em dar umas tragadas. Não vejo graça, bebo as vezes para acompanhar alguém, e que seja uma boa coisa: vinho, cerveja ou até uma cachacinha, e sempre de primeira qualidade, e nada de exageros, motivo? bom, o motivo faz me faz lembrar uma passagem do filme Chuva de Milhões, em que o camarada para receber uma herança de U$ 300 milhões do tio que havia morrido, tinha que gastar U$ 30 milhões em um mês (essas coisas não acontecem comigo) sem deixar nenhum bem, e nem doar o dinheiro ou contar para alguém, tudo isso porque o tio havia tido uma experiência quando pequeno, seu pai o havia pegado fumando, e para que ele se livra-se do vício comprou vários maços de cigarro e o trancou dentro do guarda roupa, e só sairia de lá quando ele fumasse o último cigarro… Enfim, ele pegou um nojo tremendo de cigarro e nunca mais fumou. E como ele sabia que o sobrinho era um grande gastador, então resolveu fazer essa cláusula para que ele enjoasse de tanto gastar dinheiro, e não torrasse os U$ 300 milhões.
Bom dei essa volta toda, para falar que tive meu “Chuva de Milhões” com a “marvada” pinga, só que não foi meu pai que me afogou de cachaça, foi eu mesmo por livre e espontânea vontade.
Eu tinha mais ou menos uns 17 anos, e fizeram uma reunião entre amigos, nós saindo da adolescência, nos achávamos “hominhos” só que éramos todos uns pé rapados, não tínhamos dinheiro para nada, mas então apareceram lá com umas garrafas de Velho Barreiro, e para gente não tomar assim pura, inventaram de misturar Tang de marácuja. Bebi muito, muito mesmo sozinho acredito que bebi mais de uma garrafa, eu me sentia bebendo água, fui bebendo e nem pensei no perigo.
Depois disso só me lembro de partes, lembro de estar na rua já, de trocar ideia com o portão, (perguntava para ele porque ele era tão fechado, pode?!) conversar com os cachorros e gatos que eu via na rua… de me segurarem, declarar amizade aos meu amigos (bêbado adora isso né?!). Mas o que iriam fazer comigo? naquele estado me levar para minha mãe e falar oque? e eu ainda insistindo que não estava bêbado, ele estavam dando um tempo para ver se eu melhorava, mas estava cada vez pior.
Mandaram chamar minha irmã, quando minha irmã me viu, ela dava muita risada, porque há anos atrás eu tinha dado um baita “esporro” por ela estar em uma situação parecida, então estava pronto a sua vingança para comigo, mas acham que ela ia me detonar? Não me detonou, acho até porque sabia que um dia podia precisar de meus serviços de caridade pós-cachaçada.
 
Minha irmã me pegou pelo braço e disse:
-Olha eu te ajudo a entrar em casa, mas você tem que disfarçar que está tudo bem, se não você tá ferrado!!! e eu respondi para ela quase sem conseguir falar:
– Masssss eu to bem, (gup) não”precissssso” de sua ajuda, eu to bem… olha minha cara… QUALQUER UM PERCEBE QUE EU ESTOU BEM, né?! você quer brigar comigo? “Quiem” você pennnnsa que é? Bom.. Você sabeee que eu te amo né? então não me ferra… porque eu to mal messsssmo (Gup).
Eu estava em uma confusão só. Então ela me aconselhou de novo:
-Olha então cala sua boca e vamos lá, tenta ser o mais normal possível para entrar em casa, eu te coloco na cama e ai é tranquilo.
Depois dessas instruções nos dirigimos para minha casa, minha irmã me segurando pelo braço e eu trançando as pernas e tentando falar alguma coisa mas não conseguia.
Chegamos na frente da porta, então ela olhou para mim e falou para eu ficar reto, arregalar o olho, porque estava com ele igual de peixe morto, me acertou e bateu na porta.
Meu pai abriu a porta, e eu, fiquei parado, minha irmã me cutucando, e eu sabia que não conseguia nem dar um passo sem dar uma bandeira, fiquei travado lá parecendo uma estátua olhando para cara do meu pai, meu pai ficou olhando para mim com uma cara de questionamento, até que meu pai falou:
-Como é rapaz… vai ficar ai parecendo um espantalho olhando para minha cara.
Acho que ele percebeu ali a minha falta de lucidez, então caminhei para dentro de casa, só que meu pai brincando comigo me deu um empurrãozinho quando passei por ele, foi meu fim… eu passei pela sala tentando me manter em pé, e fui cair dentro do quarto de meus pais que era de frente para onde estava caindo, tentando manter o equilíbrio, acabou ali qualquer tentativa de disfarce, fiquei no chão esperando alguém me levantar.
Engraçado que depois desse fato, não me lembro de muito mais coisas, ai as coisas ficaram totalmente desconexas, foi minha última tentativa de parecer lúcido, a seguir coloco abaixo por ordem o que eu lembro:
  1. Minha mãe fazendo um café muito amargo para mim. (horrível)
  2. Eu estava na cama, e começo a passar mal.
  3. Alguém me colocando em baixo do chuveiro.
  4. Eu sentado do lado da privada no chão, e falando para minha irmã que nunca tinha notado como a descarga é legal, ela roda… (ridículo, he he he)
  5. Apaguei…
No outro dia, acordei no sofá de casa, com a cabeça parecendo que ia explodir, ainda meio confuso com o que havia acontecido comigo, nunca tinha bebido tanto, e para falar a verdade, poucas vezes tinha colocado álcool na minha boca, tudo me parecia ter sido um sonho, eu tentando lembrar de alguma coisa, não conseguia nem mexer a cabeça no travesseiro. Lembrei de ter tomado banho, mas sabia que não poderia ter feito aquilo sozinho, mas tinha dúvida se tinham me dado banho mesmo, então olhei a minha cueca, e vi que era outra da noite anterior, tinham me trocado.
Comecei a ficar com muita vergonha, pensando em quem  tinha me dado banho, se meu pai, ou minha mãe, ou até minha irmã, não acreditava naquilo. Tomei coragem chamei e perguntei para minha mãe, ela me disse que tinha sido meu pai, e isso foi um alívio para mim, mas logo a seguir veio o infeliz cometário da minha mãe:
– Nossa!!! seu pai me falou de como você cresceu e virou homem… (ahhhhhhhhh)
Meu Deus, foi o dia inteiro com a cabeça em baixo do cobertor e sem perguntar mais nada.
Fiquei muitos anos, sem poder sentir cheiro de pinga ou de Tang de Maracujá, mas no fundo acho que minha “Chuva de Cachaça” valeu… 

ATARI

Quem nunca quis ou não viu um Atari ? lógico que muitos dessa turma mais nova não sabe nem do que eu estou falando, mas quem tem perto de 30 anos, sabe muito bem. Esse vídeo game que me tirou o sono muitas vezes, que fez muitas vezes minha mãe levantar a noite para ver o que era aqueles sons eletrônicos mono, que hoje daria vergonha perto de um Playstation 3 e eu que tinha que desligar correndo e fingir que estava dormindo por qualquer som vindo da porta do quarto dos meus pais, muitas vezes deixando o jogo do jeito que estava, não dava para salvar o jogo e continuar depois.
Demorei para ganhar o meu próprio vídeo game, quem me conhece sabe da minha paixão por games, confesso que hoje um pouco mais abrandada devido aos compromissos que adquiri, mas estou sempre informado sobre oque tem de novo no mundo dos games.
Minha primeira experiência com um vídeo game, foi na casa de um primo do meu pai, que tinha um console chamado Tele-Jogo, lançado pela Philco, bom o jogo se limitava a dois bastões na tela, cada jogador movia um deles, e tinha uma bolinha (que na verdade era quadrada… Pode?!!) que não parava, então batia em um bastão de um lado, e outro tinha controlar para não deixar passar, rebatendo para o outro lado, como se fosse um imaginário (e haja imaginação) jogo de tênis, com um som que depois de alguns minutos entrava nos ouvidos irritantemente “Poimmm, Poimmmm“, enfim para época brilhante… Então passado um tempo veio o Atari e Odyssey esse último nem com tanto sucesso quanto ao primeiro.
Depois de uma longa jornada de pedidos e greves de fome, ganhei meu Atari, só que minha mãe mandou vir do Paraguai por um vizinho que fazia este contrabando, só que o meu Atari veio diferente do sistema usado na época no Brasil, que era Pal-M, o meu Atari era no sistema NTSC, então ele não ficava em cores, funcionava preto e branco, então reclamei para minha mãe e mandaram consertar para fazer a conversão, ficou umas duas semana no conserto, imagina minha angustia e o pior voltou do mesmo jeito, então quando liguei, meu pai falou: –Uéééé tá preto e branco ainda, vai ter que mandar para o conserto. E eu logo disse: -Não, esse jogo é preto e branco mesmo, ele está arrumado!!! (Eu mentindo com medo de ficar mais um ano no conserto) acabou que o vídeo game ficou o resto da sua existência preto branco mesmo, insistiam comigo que estava preto e branco e eu dizia que a pessoa estava cega, que eu estava vendo cor, tenho trauma de assistência técnica até hoje por causa desse fato.
O grande barato era a troca de fitas, emprestava um para o amigo, ele emprestava outro, depois ninguém mais sabia qual era de qual e com quem estava, eu e meu fiel escudeiro na época o Marquinhos vivíamos caçando quem tinha algum jogo diferente para nos emprestar, e soubemos que no final da nossa rua tinha um homem que tinha muitas fitas, que se chamava Miltinho, nome pelo qual não combinava com seu tipo, ele era um negro de uns 2 metros de altura, magro, cara de bravo, mas tinha um pequeno detalhe… vamos dizer… não era chegado ao sexo oposto, era homossexual assumido, ele morava junto de uma rapaz que suponho era seu “marido”, eu e o Marquinhos sabíamos da vasta coleção de jogos dele, mas ficavamos com um medo danado de ir lá pedir emprestado e ser puxado para dentro da casa dele, só que nossa vontade de ter outros jogos foi maior, então combinei com o Marquinhos:
-Eu vou lá pedir e você fica do outro lado da rua olhando, se acontecer alguma coisa, qualquer coisa estranha, você chama a polícia. disse eu ao Marquinhos. E lá foi eu… toquei a campainha e ficava olhando para ver se meu vigia estava alerta, nisso aparece o Miltinho na porta, e eu como não queria dar nenhuma intimidade ao nobre homem disse:
– Olá Sr. MiMiMilton… meu nome é Luis e moro aqui na rua, e soube que o senhor tem alguns jogos de Atari e se não te incomodasse gostaria de saber se você não gostaria de me emprestar algum e eu te emprestava outro – eu com a minha voz trêmula.
– PODE ME CHAMAR DE MILTINHO POR FAVOR!!!- disse ele, e eu já com as pernas bambas com um calor no rosto, com os olhos arregalados, então ele me falou os jogos que ele tinha: – Eu tenho o Come-Come, de Corrida, Come-Come, de Aviãozinho, Come-come…

Olha não sei se foi coisa da minha cabeça, mas para mim ele repetiu várias vezes que ele tinha esse tal jogo do Come-Come que é o PacMan, minha cabeça começou a fazer um eco (Come Come.. Come Come…)bom, pedi qualquer jogo, nesta altura do campeonato já nem prestava atenção oque ele estava me ofertando mesmo, pedi qualquer um, estava mais preocupado naquele momento para que ele não interferisse na minha educação sexual. Então ele me emprestou um jogo qualquer, saí correndo de lá levando aquilo como se fosse um troféu, quando mostrei ao meu amigo Marquinhos ele teve quase um colapso… Eu tinha pegado um jogo que a gente já tinha, mas enfim, expliquei para ele o caso do Come-Come e ele entendeu o meu tormento, depois já perdemos o medo inicial e íamos sempre pegar as fitas com ele, mas sempre, sempre com um pé atrás.  

De todas as fitas havia uma que era proibida para menores, chamava-se X-Man, quem tinha não emprestava, e quem não tinha ficava louco para jogar, era meio que uma lenda se existia mesmo essa fita, o jogo era o seguinte: o bonequinho andava por uma labirinto e tinha que escapar de tesouras e alicates que tentavam cortar o seu “Dito cujo”, ele entrava em uma portinha e lá podia pegar sua amada, era o próprio sexo explícito no vídeo game, com aqueles gráficos todos em quadradinhos do Atari. Os moleques mais velhos da rua, todos contavam como era aquilo, e a turma mais nova ficava toda com a boca aberta, louca para ver aquele jogo. Então eu e o Marquinhos novamente saímos a caça ao tesouro de quem poderia ter, imaginamos que o Miltinho poderia ter, mas nunca que íamos pedir a ele, ou mesmo perguntar. Até que um garoto da minha escola disse que seu pai tinha, que me emprestaria com uma condição, se eu emprestasse a ele minha luva de goleiro, ahhhhh não precisou falar duas vezes, no outro dia estava o X-Man na minha mão, corri na casa do Marquinhos para chama-lo, ficamos a tarde inteira jogando aquilo, tinha até posições, para nós aquilo era o supra sumo… quase quebramos o controle de tanta alegria… e ainda tínhamos que jogar escondido, porque se nossos pais pegassem era o fim do Atari.
Mas o fim sempre chega, e chegou ao fim os anos de ouro do Atari, vieram os Nintendos, Master System e por ai vai.
Hoje tenho vídeo game de última geração, com belíssimos gráficos, mas já não tem a mesma graça, a magia ficou com o Atari, com todos seus gráficos ruins, com todos seus jogos toscos, com seus sons medonhos, em que na verdade precisavamos imaginar um homenzinho, um carrinho, um aviãozinho ali naqueles quadradinhos, mas para nós na época era tudo, passar uma tarde em frente ao game disputando com os amigos. E também como podem ver passou dos limites de simplesmente ser um video game, para mim ensinou algumas coisas mais…
Mas ainda acredito que esta nostalgia se dá aos meus jovens anos que também não voltam, e se tornam uma lembrança prazerosa de um mundo inocente e menos complicado.


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LUSA? PORQUE?

Muita gente me pergunta porque eu torço para Portuguesa de Desportos, isso me pertuba, ou senão me perguntam: fora a Portuguesa para qual time você torce? , Porra!!! torço pra Lusa, poxa!!! e só, mais nada!!!! (risos) Levo na boa, mas minha resposta padrão é que precisa ter coragem para para torcer pra Lusa e falar para todos que torço pra Lusa. Tenho muito orgulho de minha escolha… deste meu amor, desta minha loucura. Torcer para um time que nunca vi campeão de algum título de expressão nacional, mas nada é assim do nada, tudo tem uma história, tudo tem um começo…

A primeira vez que entrei no Canindé foi com meu tio Cininho eu tinha 5 anos, ele me levou em um jogo e fui ali para as numeradas, assisti o jogo dali, fiz um esforço enorme agora para lembrar com quem a Portuguesa jogou mas não me lembro, mas sei que ganhou, e pela agitação daquele dia foi um jogão, e meu tio cometeu a “maldade” de me comprar um Snoopy com a camisa da Portuguesa, logo achei que o Snoopy torcia para a Portuguesa, e que a Lusa era o time mais legal do mundo (de fato ainda acho isso mesmo), POXA!!!! até o Snoopy torce para a Lusa!!? pronto, ali estava selado o meu eterno compromisso e amor com a rubro-verde do Canindé. Decorei o nome de dois jogadores que eram o Ewerton (Um goleiro Barbudo) e o Toquinho. Eu jogava bola no colégio e falava que era um ou outro, dependendo da posição. 

Depois deste dia do Snoopy fiquei alguns anos sem ir aos jogos, então lembro de ir em um jogo bem importante, e neste dia foi toda a família, porque a Lusa podia ganhar o primeiro turno do Paulistão de 1985 e assim a Lusa o fez, foi campeã, este jogo foi contra a Ponte Preta, e foi neste dia que pisei no gramado do Canindé pela primeira vez, na época o Canindé não tinha estas grades que tem hoje em volta do gramado, e o folclórico Chiquinho da Leões da Fabulosa me colocou dentro do gramado, ele ficava ali no vão entre a arquibancada e o gramado colocando toda a criançada para dentro do campo, foi uma festa enorme este dia… Então comecei a ir sempre com meu pai em jogos, essa época eu tenho uma saudade imensa, eu sempre entrava junto com os jogadores, sempre, e tentava ficar no gramado e assistir o jogo alí escondido, fato este que nunca consegui, sempre me viam e me mandavam sair, nunca consegui assistir nem o apito inicial dalí. As vezes durante a semana ía assistir os treinos, e o estádio geralmente ficava fechado, mas eu sabia que um dos portões costumava ficar aberto, entrava, e ficava ali assistindo, e uma dessa vezes pulei no gramado, fiquei ali do lado do técnico da Portuguesa, sentado no gramado o vendo dar uma entrevista para um jornal, fiquei ajudando a colocar a bola em jogo quando a bola saía (um prazeroso gândula), é pedi uma bola para técnico da Portuguesa que na época era o Jair Picerni, e este me deu, foi uma alegria imensa quando cheguei com essa bola em casa. Este tipo de coisas de ficar ali sentado babando pelos jogadores, ali pertinho, vendo o trabalho do goleiro que na época era o Sidmar, são tipo de coisas que só uma criança pode fazer, essas atitudes não posso fazer hoje em dia, não cai bem para minha idade.
Os anos passaram e ví grandes jogadores vestindo o manto rubro verde: Zenon (Com a camisa sempre fora do calção), Biro-Biro (Este me prometeu dar a camisa no final da partida, mas se contundiu e nunca mais jogou na Lusa) Valdir Perez, Edu Marangon, Capitão, Zé Roberto entre outros o inesquecível Dener… este pelo qual paguei um mico uma vez. Estava com a camisa na mão e caneta, corri para ele assinar e disse: -Dener, Dener autográfa aqui pra mim!? e ele assinando minha camisa disse: -Eu sou o Tico, o Dener esta ali… (Ai que vergonha) então corri e o Dener assinou a minha camisa (E dei essa camisa antes do Dener morrer, eu sei podem me xingar, me arrependo muito por isso)
Meus domingos já eram assim, eu e meu pai acabavamos de almoçar e íamos para o Canindé, eu lá com a minha bandeira pra fora do carro, uma bandeirona de uns 2 metros que ganhei do meu tio Cininho, tanto fazia se a Lusa estava bem ou mal, mas naquela época não me lembro de a Lusa ir mal em algum campeonato, naquela época a Portuguesa sempre estava ali nas ‘cabeças”, meu pai gostava de ir bem cedo, então antes de começar o jogo andavamos todo o Canindé, íamos na Gruta de Fátima, ficavamos esperando a chegada do ônibus com os jogadores, ficavamos pechinchando preços no bazar da tia que vendia artigos da Lusa, era tão legal aquele tempo, tinha mais acesso, mais perto com os jogadores, e não esse monte de grades, que até se justifica pela selvageria de alguns que se dizem torcedores hoje em dia.
Bom, minhas duas maiores tristezas com meu time foi não conseguirmos ganhar aquele título Brasileiro de 1996 (Final contra o Grêmio) e aquela lambança na semi-final do Paulista de 1998 em que o Sr. Juiz, Javier Castrilli meteu a mão na nossa Lusa… essa espinha vai ficar na minha garganta até um dia poder soltar o grito de campeã.
Este é meu amor incondicional pela Lusa, e mesmo que nunca veja campeã, pra mim é sempre o time campeão… (como diz o hino)
Vamos à Luta

ANTONIO GOUVEIA

Conheci o Sr. António Gouveia em 2002 procurando sobre contos do Mama na Burra, Arranca Pinheiros e Arrasa Montanhas, são contos infantis de origem portuguesa. Procurando no Google sobre as estórias vi que ele citava em uma de suas histórias contadas em seu blog, mas a estória em , ele não contava, então mandei um e-mail a ele perguntando se ele tinha as estórias do tal Mama na Burra, e ele gentilmente disse que não tinha, a não ser algumas lembranças, mas fez questão de ir atrás para mim, procura-las… depois de um tempo ele me apareceu com história completa… Ele havia encontrado um homem que era um contador de histórias populares nas escolas portuguesas então passou a ele a mesma. Depois disso passamos a trocar e-mails frequentemente, e como gostava de ler as histórias dele em seu blog, comecei a ter uma ideia de escrever algumas lembranças minhas, e escrevia e mandava a ele, ele revisava e mandava de volta pra mim, e fui guardando, quando vi já tinha 4 ou 5 histórias da minha vida… Então criei o site, e hoje o blog… Quando estive em Portugal fiz questão de ir lá conhece-lo, uma pessoa fantástica e de uma cultura incrível, sempre ligava no Natal dos seguintes anos, para ele e sua esposa Adalina. Depois de alguns meses eu mandava e-mail a ele e via que não respondia, então fui atrás e descobri que ele havia nos deixado… O Sr. Antonio, faleceu em Março/2008 – Então resolvi colocar uma das histórias dele aqui no blog, segue abaixo uma de muitas que achei interessante e fascinante, eu ia “abrasileirar” o texto, mas deixei exatamente igual postado em seu blog, se não ele vinha puxar meu pé, e quem sou eu para mudar alguma coisa de que essa pessoa tão notável escreveu… somente fiz um parênteses em uma palavra que não é usual em nosso vocabulário no Brasil, para que possa ter um melhor entendimento desse curioso texto, segue abaixo a história:
UMA IDA A LISBOA…
Há dias, coisa que ultimamente raras vezes acontece, atravessei o rio e fui a Lisboa. Esta “ida a Lisboa”, desde já previno, para não ser objecto de maldosas intenções, nada tem a ver com o conhecido anúncio “Casal que venha a Lisboa, telefone tal, local sossegado e discreto” em tempos muito frequente nos nossos jornais. Tal anúncio, aliás, já nem se usa mais. Nem é necessário. Hoje é tudo mais directo, mais objectivo: “ boazona, tenho 20 anos, faço isto e aquilo e aqueloutro, espero-te, telefone nº…”. Não, nada disso, Deus me livre. Até porque a minha vetusta idade me põe ao abrigo de tão malévolas como injustas suspeitas e, sobretudo, de tão iníquas tentações.

A minha ida a Lisboa teve a ver, sim, com uma deslocação ao hospital (IPO). Consulta de rotina, felizmente. Numa das salas de espera, por estranha coincidência encontrei um amigo de escola, o Nunes, que não via há um ror de anos. Exclamações de surpresa, abraços, “Há quantos anos, pá!” “Eh pá, o que tens feito?”, “Onde moras?” “Casaste?” Tens filhos e netos?” … enfim, o habitual em tais circunstâncias, excepto o ser dito em voz ciciada, uma vez que ambos, eu e o Nunes, somos pessoas educadas, ao contrário da maioria das pessoas que, neste sítios e em iguais situações fazem um escarcéu tal que não permite ouvir sequer o nome dos doentes chamados através da voz roufenha dos intercomunicadores.

“E que fazes por aqui”, perguntou-me o Nunes no final das calorosas manifestações próprias de tão inesperado reencontro. “Problemas de pele, coisa sem importância, espero” respondi. “E tu? “Eh pá, se queres que te diga, ainda não sei. Estou à espera do resultado de uma endoscopia para saber da gravidade de um problema que me afecta os intestinos, e devo confessar-te que é com algum cagaço que aguardo esse resultado. “Não há-de ser nada” respondi, com aquela “certeza” que a gente sempre tem quando diz estes inevitáveis lugares comuns..
“Era bom é que, a ter alguma coisa, eu tivesse a sorte do Marques. Lembras-te do Carlos Marques, aquele gajo que morava ao fundo da minha rua, muito conservador, e se formou em direito?”. “Sim, sim e o que aconteceu com ele ?”.Eh pá é uma história do arco da velha, nem dá para acreditar”. E vá de me contar a história do Marques, tintim por tintim, que na sala de espera de um hospital há tempo de sobra para contar nem que sejam as mil e uma histórias das mil e uma noites da Sherazade:

O Marques, rapaz do nosso tempo de escola e agora brilhante causídico numa firma de Advogados da capital, tinha uma problema na vida, infelizmente nada invulgar nos dias que correm. Amava uma mulher e casou com outra. Interesses familiares, inércia, preconceitos… o costume. A mulher, Leonor, era médica e a amada, Isabel, sua amiga de infância e namoradinha de adolescente, era agora sua colega no escritório de advocacia. Dois anos depois de casado já o Marques se tinha arrependido de o não ter feito antes com a doce e dedicada Isabel em vez da fria e frívola Leonor. A sua rígida educação religiosa não lhe permitia, no entanto, imaginar sequer uma situação de divórcio.

Anos depois, ao Marques, na sequência de muitas queixas e após repetidos exames e biopsias foi-lhe diagnosticado um carcinoma com metastização disseminada, ou seja, em linguagem entendível, um bruto de um cancro (Câncer) no estômago, incurável no dizer do médico que o assistia. A menos que um milagre acontecesse, acrescentou o clínico, – que não pareceu ao Marques ser pessoa muito dada a acreditar em tal tipo de curas – mas que, no entanto, porque nunca se deve desistir, lhe prescreveu o recurso, primeiro à radioterapia e posteriormente à quimioterapia.

O Marques, como se compreende, ficou desfeito com aquela autêntica a sentença de morte. Isabel foi o seu grande amparo nos meses terríveis que se seguiram.
A radioterapia falhou, tendo começado depois a terrível prova da terapia química com todos os inconvenientes que se lhe conhecem. O Marques não reagia já a qualquer tratamento porque em verdade ele tinha desistido de viver.

Certo dia em que era suposto estar a dormir no seu quarto, levantou-se para ir até à cozinha e ao passar em frente do escritório, ouviu lá dentro, através da porta, anormalmente fechada, a voz da mulher falando ao telefone. Parou para escutar e ouviu, incrédulo a conversa que jamais tinha sonhado ouvir “Sim, querido, é como te digo… Ele já pouco tempo tem de vida… Como? … Meses, querido, alguns meses apenas… Sim, sim, garanto-te, é só teres um pouco de paciência… claro, podemos então fazer juntos a nossa sonhada viagem às Seichelles e irmos aonde quisermos….Não, não hoje não posso… Sim, sim, amanhã lá estarei, à hora do costume”

“Grande cabra”, conseguiu articular o Marques rangendo os dentes. “Mas eu não vou morrer, garanto-te que não vou morrer, não vou morrer”, e escapuliu-se para o quarto, como se nada tivesse ouvido, nada tivesse acontecido. No dia seguinte, com grande espanto e mal disfarçada contrariedade da mulher, resolveu retomar os tratamentos de que tinha desistido. Com o apoio efectivo de Isabel, e sem nuna se dar por achado do que sabia àcerca da infidelidade da mulher, a tudo se submeteu, com uma força de vontade impressionante, com uma coragem de que nunca se julgara capaz e, surpreendentemente, ao fim de alguns meses, começou aos poucos a recuperar, a sentir-se mais forte, a ter menos dores, a ganhar cor e apetite, deixando espantado e incrédulo o médico assistente, cada vez que o examinava.

Ao fim de mais algum tempo, cerca de um ano talvez, fez novos exames e, de acordo com o relatório, estava completamente curado. “Estou espantado, meu amigo, foi um milagre, um verdadeiro milagre”. Acabou por admitir o médico.

Passados alguns dias, o Marques estava pronto a voltar ao trabalho, mas antes de o fazer resolveu pedir uma licença graciosa na sua empresa e comemorar a incrível e inesperada vitória sobre a sua morte anunciada, com um jantar num restaurante chique da cidade, para o qual convidou todos os seus colegas, incluído obviamente a sua fidelíssima Isabel, os seus pais e os de sua mulher que se fingia também muito satisfeita com a sua recuperação e alguns amigos desta, entre os quais se contava o amante que ele, com muita astúcia e paciência tinha acabado por identificar e que era, afinal, senão propriamente um amigo, um fulano das suas relações comuns.

Ninguém faltou, claro. Todos vestidos a rigor, uma mesa ornamentada, com fino gosto, um serviço impecável, um convívio simpático e ruidoso e por fim os brindes, entre os quais se salientou pelo seu tom emocionado, o da pérfida Leonor e por fim o do homenageado. Agradeceu a todos o acompanhamento e solidariedade na sua dolorosa provação e terminou com uma declaração inesperada. “E agora, meus amigos, tenho prazer de vos anunciar que aproveitando a licença graciosa que solicitei e me foi concedida, parto dentro de dias para as Seichelles (a escolha deste destino não era inocente, como nós sabemos) acompanhado da minha querida… Isabel, que tanto me apoiou, como sabem na minha doença. Imagine-se o burburinho, as exclamações, os gritinhos, e logo a voz titubeante e pretensamente indignada da estupefacta Leonor… “Então, então e eu…?” Você, minha querida, respondeu impassível o Marques, vai para a puta que a pariu, acompanhada desse chulo que está ali sentado (e apontou-o com o dedo) com quem quem voçê me traia, garantindo-lhe a certeza da minha morte iminente. E que vos faça bom proveito.
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É esta, em traços gerais a história mirabolante que, boquiaberto e incrédulo, escutei do Nunes. Omito, por desnecessários e fastidiosos, certos pormenores e pícaros comentários com que ele, excelente narrador a enfeitou e lhe deu colorido. Mas juro que ela contem apenas os elementos que julguei necessários ao claro entendimento de quem a leia – o que, espero aconteça consigo, estimado leitor.

Para fim de conversa, que entretanto foi interrompida pela voz do intercomunicador a chamar-me para a consulta, para a qual corri após um abraço ao Nunes e desejo de boa sorte, apurei ainda que o Marques acabou por casar com a Isabel, que tiveram dois filhos e alguns netos e que, velhotes como nós próprios, ainda vivem, numa bela moradia lá para os lados de Viana do Castelo de onde ela é natural.

Pois é. Mais uma vez aprendi algo com uma ida ao hospital. Na verdade, cada vez que entro em algum estabelecimento hospitalar, saio de lá quase sempre mais optimista, por constatar que qualquer problema que me esteja a afectar no momento é, por via de regra, mesquinho e insignificante comparado com os quadros de miséria que ali se me deparam. Desta vez, graças à história do Marques, eu aprendi ainda que, a juntar ao sábio aforismo popular de que “o amor faz milagres” poder-se-á acrescentar “e o ódio também”.

Legal ???
Meu amigão Antonio Gouveia descanse em paz, aqui está o blog dele:
vale muita a pena ler…

Hoje dia 18/05/2010 achei em um site antigo do Sr. Antonio um texto postado por ele sobre minha ida a Portugal, confesso que me emocionou… junto disto tem um texto que escrevi na época para ele… fiquei muito contente… Leiam:

31-8-2005

O Luís Morais é um jovem Brasileiro. Filho de pais portugueses, nasceu e vive em São Paulo. Escreveu-me há dois ou três anos. O pai havia falecido recentemente e rememorando as boas recordações dos tempos de criança, vieram-lhe à memória as cantilenas e as histórias populares com que o pai o ajudava quantas vezes a adormecer. Entre elas havia a história do “mama-na-burra” e das suas mirabolantes proezas face aos dois temíveis adversários, o “arranca-pinheiros” e o “arrasa-montanhas”. Só que as façanhas destes personagens lhe vinham à mente como fios soltos de um farrapo velho. do qual pouco mais restava do que difusa e mágica palavra mama-na-burra. Só que o pai já não estava cá para cerzir esse farrapo e reconstituir a história que tanto o encantara.

Indagou junto da mãe e dos amigos, mas ninguém conhecia ou era capaz de reconstituir a história. Lembrou-se de ir à net e à primeira tentativa a pesquisa levou-o direitinho a esta minha Página sobre Moscavide, onde, a dado passo, falo das saudades que também sentia do tempo em que nas noites quentes de verão nos entretínhamos a contar e a ouvir, entre outras, as fantásticas proezas do poderoso mama-na burra. Foi quanto bastou para o Luís me escrever, perguntando se eu seria capaz de reconstituir inteira a narrativa deste conto que seu pai lhe contava, pois já não tinha mais ninguém a quem perguntar.

Claro que já não me recordava da sequência e dos pormenores da narrativa, Então, minha mulher pôs-se em campo e conseguiu obter, junto de um contador de histórias, não uma mas três versões completas – entre as quais uma originária de Trás-os-Montes, mais precisamente de Podence, terra do falecido pai do nosso jovem.

Desde então ficámos amigos e trocamos correspondência com frequência. Este ano o Luís veio pela primeira vez visitar a terra de seus pais e, de caminho, fazer-me uma visita em Almada, onde resido.

De regresso a casa enviou-me este belo texto:

Olha que esse Mama na Burra

Deve ser algum Herói

Uma espécie de Super-man

Ou Bat-man ou qualquer um desses

Ele fez que eu atravessasse

O tão sonhado Rio Tejo, de barco

Olha esse mama na burra

Fez com que eu conhecesse os “Joaquinzinhos” e os Carapaus

Ai, Ai uma tarde em Almada

Com meus amigos Antonio e Adelina

Depois em Cabo Espichel e Aldeia do Meco

Olha que esse Mama na Burra

O mesmo que papai contava quando eu era pequeno

Me levou para conhecer pessoas maravilhosas

Que eu vou guardar para o resto da minha vida

E essas pessoas que justamente estavam

Em um dos momentos mais importantes e felizes da minha vida

Olha que esse Mama na Burra é Valente

Luis Morais

Comentário: É este o poder da internet. E, se outras razões não houvesse ,o simples facto de ter possibilitado a este jovem o resgate das memórias da sua infância, o apaziguamento da dor pela perda do pai/companheiro que era o seu, e o desejo, talvez até então não sentido, de visitar os locais onde o pai, em criança também, ouvira dos mais velhos a história do mama-na-burra – só esse facto. dizia, me compensaria do trabalho de criar e manter esta Página.

E está aqui também o video do conto que fez com que eu conhecesse o meu amigo, que é o do Mama na Burra, este video achei na internet e achei que vinha bem a calhar neste post, para quem quiser conhecer este conto infantil:
http://videos.sapo.pt/6AoVihBmzluAfiJw8yUE

SONHO DE PORTUGAL

Desde que eu era pequeno eu tinha uma terra de tudo perfeito, uma terra em que era só brincadeiras, uma terra dos sonhos…. um cantinho além mar chamado Portugal, isso foi que meu pai fez com minha cabeça, eu cresci assim… pensando que Portugal era uma terra de contos de fadas… a terra do nunca. O sonho do meu pai era levar todos nós a Portugal (eu, minha mãe e irmã) conhecer a aldeia onde ele nasceu, conhecer o amado irmão dele, o nosso tio Horácio. Mas por acaso do destino nunca conseguimos realizar este sonho do meu pai, de irmos todos juntos… Meu pai tinha umas coisas muito engraçadas no meio destes sonhos, ele queria chegar lá de domingo e dizia que íamos jogando bola na rua quando chegássemos na aldeia dele (Podence) eu de um lado da rua e ele do outro, um tocando a bola para o outro, e ele ia chegar de óculos escuros pra que todos ficassem perguntando de quem se tratava, aquele louco que chegou na missa… aquele louco que queria ir no dia da festa de Santa Eufémia, quem era ele? quem era aquele sonhador?. Os sonhos dele foram moldando os meus sonhos, de tanto meu pai falar na minha orelha sobre Portugal, acabei tendo um amor incondicional pela terrinha… quando cresci o meu sonho era levar meu pai a Portugal e jogarmos aquela bola de um lado para o outro da rua, dele me mostrar cada canto onde ele passou a sua juventude, mas também por um acaso do destino não consegui, meu pai faleceu, sem dúvida até hoje a minha maior frustração, cheguei a sonhar na minha infância que estava eu, minha irmã e minha mãe no avião, mas meu pai não… eu olhava na janela do avião e via meu pai dando “tchau” na cabeceira da pista quando o avião decolava… cheguei a pensar que se tratava de uma profecia, mas depois da morte da minha mãe não acreditei mais nisto.
Logo após a morte do meu pai em 2002 prometi a mim que iria a Portugal, iria cumprir o que ele falou, iria a todo custo, iria conhecer o irmão dele… iria a terra dele… quando os ventos me levaram para onde eu tinha que ir, dei entrada na passagem, comprei-a em 10 vezes pela Ibéria, estava marcada para ir Agosto/2005 para baratear eu tinha que fazer escala em Madrid na Espanha, eu comprei em Fevereiro do mesmo ano, imagina a minha angustia para aguardar até Agosto, mês que propositalmente comprei a passagem pois era a tal festa de Santa Eufêmia, e logo eu que não sou católico, mas eu queria fazer a vontade do meu pai.
Eu não contava os meses, eu contava os dias… contava as horas… Bem, para encurtar estes meses de sofrimento, já estamos em Agosto… estou dentro do avião na pista, estou dentro do avião pegando embalo para decolar, eu olhando na janela, imaginem a cena que me veio a cabeça? do meu pai dando “tchau” na cabeceira da pista, eu sozinho dentro daquele avião com pessoas estranhas, que não sabiam minha história, que não sabiam o motivo de eu estar ali, não sabiam porque aquele rapaz estava com lágrima nos olhos, com vontade de chorar de soluçar, mas engolindo tudo para … Todos os meus sonhos e de meu pai passando pela minha cabeça, tudo, das conversas que nunca terminaram, do irmão, da bola… tudo vindo como um filme na minha cabeça…
Depois de 11 horas de voo, estou pousando no velho continente, só que estava em Madrid, aeroporto de Barajas, ainda tinha 1 hora de voo para Lisboa, onde meu primo Zé Horácio (filho do meu tio Horácio) me aguardava, fiz a escala, e lá estou eu, agora sim indo para terrinha, passei todo este tempo desde que saí do Brasil sem dormir, a minha ansiedade não deixou eu piscar os olhos, mas o engraçado que me sentia como se tivesse dormido a noite inteira, estava super bem… até que escuto: -“Bom dia senhores passageiros, estamos prontos para pousar no aeroporto de Lisboa, o tempo é bom… e dentro de 5 minutos estaremos tocando o solo”. Então o avião pousa… ele pousou… desci na pista, a minha vontade era fazer como o Papa João Paulo 2° era me ajoelhar e beijar o chão… juro que pensei em fazer isso, mas ia ser um micão (risos) tive que me conter. Encontrei com meu primo, aqueles abraços, ele que já havia estado no Brasil 2 anos antes, então já nos conhecíamos, 2 anos antes tinha sido muito legal quando ele esteve no Brasil também, e por ele morar em Lisboa foi uma grande facilidade para mim, pois ele me deu hospedagem, refeição, muita atenção e carinho, ele e sua esposa a Paula, fato que jamais vou esquecer nessa realização de um sonho, eu não tinha condições na época de arcar com despesas, eu mal tinha dinheiro suficiente para tudo, saí do Brasil com o dinheiro contadinho.
Fiquei uma semana em Lisboa conhecendo todos os lugares, sozinho caminhando pela cidade, pois meu primo estava trabalhando e não podia me acompanhar. Conheci Mosteiro dos Jerônimos, Torre de Belém, Monumento aos Descobridores, Chiado, Alfama, Mosteiro do Carmo, Castelo de São Jorge, Igreja de Santa Igrazia (Onde está sepultada a famosa cantora portuguesa Amália Rodrigues) comi os famosos Pastéis de Belém (os verdadeiros, pois aprendi que fora de Belém, os mesmo doces são chamados de Pastéis de Natas) tomei café onde o poeta Fernando Pessoa tomava seus cafézinhos que é o Café a Brasileira (inclusive tem uma estátua do mesmo no local, sentadinho ali vendo o movimento e pesando no próximo poema), estive também, ai sim com meu primo depois, no Palácio da Pena em Sintra e no Estádio da Luz campo do Benfica, e dois dias como ele estava a trabalho e precisava ir o acompanhei em vários lugares no Alentejo. Foi assim uma realização, as vezes parava e pensava que aquilo era o que eu estava vivendo no momento e daqui a pouco tudo aquilo iria acabar, mas não queria que acabasse… mas não tem jeito… Nesta mesma semana atravessei o rio Tejo de barco eu fui até Almada conhecer o meu querido amigo Antonio Gouveia, ele e sua esposa Idalina me levaram á um dos lugares mais impressionantes que conheci na vida, chama-se Cabo Espichel, fantástico!! um dia se alguém estiver pelas bandas de Portugal vão até lá, vale a pena pela vista… Eu volto ainda lá… com certeza.
Passado essa semana fantástica em Lisboa chegou a hora de ir para o norte de Portugal, Bragança e finalmente conhecer meu tio Horácio, e chegaríamos no final de semana da festa de Santa Eufémia, meu primo e eu fomos de carro, foram 400km de viagem… desta vez tive a impressão que foi muito rápido… Chegamos a Macedo de Cavaleiros, que é o distrito da aldeia do meu pai, que é Podence… Em Macedo que é onde meu tio mora hoje em dia na casa de outro meu primo, então veio o momento do encontro.
Subi as escadas da casa do meu primo Antonio Luis, e pedi para que o Zé Horácio filmasse tudo dali pra frente… eu tinha levado uma filmadora que a minha madrinha havia me dado de presente (isto era um segredo até escrever agora, na época ela não quis que eu contasse pra ninguém). Então, finalmente… estava lá meu tio Horácio parado na minha frente, estava ali, tão real, tão pertinho, olhando para mim e sorrindo… o abracei… forte, e as vezes parava para olhar se era ele mesmo, ele se emocionou também, e sei que ali nas lágrimas dele estava meu pai… aquele abraço era para meu pai também, certos momentos da vida de uma pessoa não tem dinheiro que pague, este foi um na minha vida… não tinha preço, não tinha tempo… passado, presente e futuro se misturaram ali em uma grande ciranda de emoções. Entrei na casa, depois desse primeiro momento, sentamos e ficamos olhando um para o outro e chorávamos, ele se levanta me mostra um retrato de sua esposa falecida (Minha tia Celina) e eu tinha carteira fotos da mãe e do pai dele, que meu pai havia deixado e eu guardei, mostrei a ele, o engraçado que fazíamos isto sem nenhuma palavra, não conversavamos, só nos olhavamos, e choravamos em silêncio… O que tínhamos para falar? os nossos corações que conversavam… Fazia 35 anos que ele não via meu pai, e eu estava ali representando o sonho do louco do meu pai.
No outro dia era a festa de Santa Eufémia, e eu estava lá cedinho em pé em frente a igreja (isto já em Podence na aldeia) eu e meu tio, para a procissão… a banda tocando, e cadê o sonhador de óculos e com a bola? ele não estava, não de corpo presente… mas dentro de mim, estava lá sorrindo e brincando comigo…
Nesta viagem estive também na aldeia de minha mãe, fui recebido como um rei lá… muito, muito carinho de todos os tios dela comigo… Chama-se Agua Revez que é sub distrito de Valpaços… Encontrei uma amiga de infância de minha mãe a Mariazinha, foi muito legal também…
Olha, esta viagem foi perfeita, ou quase… Faltou o cara que me ajudou a sonhar…
Mas meu sonho agora é que ainda vou jogar bola com meu filho lá em Podence, quando eu tiver este filho… eu de um lado da rua, e ele do outro… e chegar de óculos escuros na missa (claro!!)… Os sonhos tem que ser completos… Não é?! de filho do sonhador, para o próprio sonhador…
O que é a vida sem um sonho?

BICICLETA

Eu nunca olhei bicicleta com bons olhos… Bom… nunca não, nem sempre foi assim…

Meu pai era um amante de ciclismo, e sempre me incentivava a andar em duas rodas, e eu confesso que gostava muito, ele me contava as suas aventuras em duas rodas quando era jovem, e eu via o brilho nos seus olhos, eu era apaixonado pelas histórias. A primeira bicicleta que andei foi a da minha irmã, ela já andava sem rodinha e queria me incentivar a andar sem também, mas ai eu tinha medo, claro! Então ela me disse vai pedalando que eu vou do seu lado segurando a bicicleta, ela disse para eu ir pedalando com toda minha força, ela ia correndo atrás segurando no banco da bicicleta, ela era minha segurança, mas então olhei para trás… Cadê minha irmã?????? então eu pedalava mais rápido com medo de cair…. e enfim aprendi a andar de “bestaquieta” (como costumava chamar)… Eu devia ter uns 6 anos.
Mas passaram os anos e queria ganhar minha própria bicicleta, eu já tinha 9 anos de idade, enchi o saco dos meus pais, até que todos meus amigos ganharam, minha mãe resolveu me dar também… então chegou o natal daquele ano, acho que foi o natal mais legal da minha vida, meu pai fechou a lanchonete no dia 24 de Dezembro e fomos todos para o Mappin (quem lembra do Mappin ?)… Eu queria uma BMX-Pantera, que era a bicicleta febre do momento, tinha uma plaquinha na frente tipo uma motocross… era a coqueluche da molecada… Mas chegando lá no Mappin havia acabado a tal da bicicleta, tinha um outro modelo que era a BMX-Carrera, era quase igual, só que mais cheia apetrechos, pintura diferente e mais cara… só que não tinha a “porra” da plaquinha na frente… com a numeração… eu com medo de meus pais mudarem de ideia disse que queria essa mesmo e nem toquei no assunto da placa… com medo de anularem a compra por acharem que não iria gostar… Compraram a minha sonhada bicicleta, só minha… na cor laranja… a bicicleta era totalmente laranja… até os pneus… Saímos da loja e eu tenho uma imagem gravada na minha cabeça que nem que se passe uma vida inteira vou me esquecer, meu pai carregando no ombro aquela caixona com minha bicicleta dentro no meio do povão, ali perto da Praça da República no centro de São Paulo… eu de mão dada com minha mãe atrás, olhando aquela cena e dávamos risada… Isso jamais vou me esquecer.
Chegamos em casa meu pai foi montar a minha bicicleta, mas meu pai era muito desajeitado com essas coisas, tivemos que chamar o vizinho, o Sr. Bernardo… Só que era dia 24 como falei, e eles tinham que preparar a ceia de natal, e dei uma volta na rua, mas tive que guarda-la porque iria toda a família para casa. Passou a noite de natal e eu louco para andar com minha “magrela” e nada, dormi com a bicicleta do lado da minha cama naquela noite e com a mão agarrado nela… Mas a história dessa bike poderia ter sido bem pior…
Passado + ou – 1 ano, a bicicleta se fosse carro já teria feito todas as revisões, porque eu andava muito com ela, para cima e para baixo o dia inteiro, chegava da escola pegava a bicicleta, só largava para jogar bola, e voltava para a bike… tentava o dia inteiro empinar a bicicleta (risos), umas das minhas maiores frustrações foi não aprender a andar com a roda da frente empinada…
Enfim, um belo dia a tal bicicleta quebra o freio e logo em seguida fura o pneu, era um sábado pela manhã, pedi dinheiro para minha mãe para ir consertar, e ela estava de saída para ir para lanchonete e cismou que queria que eu fosse junto… mas eu cheguei a teimar com ela que não queria (ela jurava de pé junto que teve uma premonição naquele momento) mas depois de muito insistir ela me deu uns trocados, e fui para o famoso japonês da rua de cima que consertava as bicicletas… uma bicicletaria que tinha por perto. Cheguei no tal lugar e o japonês me disse que o dinheiro que eu tinha ou dava para consertar o pneu, ou consertar o freio… Adivinha que uma criança de 9 anos consertaria para poder andar com a bicicleta? claro que o pneu, o freio eu brecava com o pé… e assim ele o fez, consertou o pneu furado. Peguei a bicicleta e fui embora, tinha uma ladeira bem íngreme que eu tinha que descer, e todas as outras vezes que eu tinha descido eu tentava sem apertar o freio, mas nunca havia conseguido, pois lógico a velocidade era muito alta. Mas na minha cabeça de jegue aquele dia, eu quis me auto desafiar, pensei que hoje não teria como eu brecar, então logo não me trairia… Até hoje não sei como tive essa ideia de asno. Para não pegar tanta velocidade eu desci até o meio da ladeira segurando a bicicleta… Quando chegou, respirei fundo (parecia que iria ganhar uma medalha olímpica por isso) e fui soltei… a bicicleta começou a tomar uma velocidade impressionante, eu comecei a me apavorar, porque não dava mais para segurar no pé, comecei a fazer uma curva para direita que tem na ladeira, já quase deitando a bicicleta, depois tinha que fazer outra curva para esquerda, mas… não consegui… fui reto… até onde lembro eu bati a roda da frente da bicicleta no portão de uma casa… apaguei… uma pancada imensa. Acordei sentado na guia da calçada, com a mão na boca e sangue para todo o lado… ai eu só lembro de flashes, eu pedindo para me levantarem e eu não conseguia ficar em pé, um monte de gente em volta me olhando, rostos conhecidos mas não conseguia lembrar o nome, eu perguntando onde estava minha bicicleta… Fui para o pronto socorro… Quebrei o pé, o nariz, luxação em vários lugares do corpo, meus dentes ficaram todos moles… Testemunhas dizem que bati no portão, depois fui jogado contra um poste e por fim bati em um muro… tipo um boneco sendo jogado de um lado para o outro.
Cheguei em casa parecia uma múmia todo enfaixado, e eu tinha que ir ainda para o hospital mas tinha que esperar meus pais chegarem da lanchonete… Meu pai havia recebido a ligação avisando do ocorrido, mas ele como era a tranquilidade em pessoa, não falou para a minha mãe… esperou fechar a lanchonete, e naquele dia tínhamos um casamento de uns amigos para ir… minha mãe no caminho para casa disse ao meu pai que tinham que comprar o presente, no que meu pai muito calmamente disse que achava que eles não iriam ao casamento, porque eu havia sofrido um grave acidente de bicicleta… Nossa!!! quase que tem outra tragédia aquele dia na família… minha mãe quase matou meu pai…(risos)
Chegaram meus pais, foi aquele drama quando minha mãe me viu, lembro muito desta cena também. Fomos para hospital, fiquei de observação… Então lembrei minha mãe que eu tinha atrapalhado ela, pois ela não iria assistir o último capitulo da novela que ela tanto gostava e que acompanhou desde o começo, que era a novela Roque Santeiro… Mas ela me disse que não tinha problema, que aquilo eram todos personagens de ficção e eu era a vida real dela…
Depois deste dia, do dia do tombo, sempre fiquei com medo quando minha mãe teimava que era para eu fazer alguma coisa, ou não fazer… as vezes fazia as coisas contra a vontade dela, só que ficava com c# na mão….
A visão sobre bicicletas na minha vida fizeram com que não gostasse muito delas…

SEMPRE OS 4

Mãe, Desculpa se não fui um bom filho, mas juro que fiz tudo que eu podia, se as vezes pegava no seu pé era para que ficasse um pouquinho mais comigo… Queria poder ter te dado uma vida melhor, mas eu tive que começar do zero, não tive tempo, mas ia te dar muitas coisas ainda…
Desculpa por não ter te dado um neto e nem entrar contigo na igreja, as coisas aconteceram na minha vida e o tempo foi meu inimigo…
Você com todos os teus defeitos e qualidades foi uma mãe maravilhosa, criança que era mulher, não tinha medo de ser feliz, não tinha medo do que os outros pensariam… não tinha medo…

Hoje desdobrei as últimas roupas que você me lavou e passou, e posso sentir o teu toque ali… As roupas vão ser lavadas de novo, trocadas, dadas… mas, sua presença sempre vai estar nas minhas roupas, dentro delas, do lado esquerdo do meu peito… ” A onde quer que eu vá, levo você no olhar”…
Bom, agora me resta o mundo, não sei se estou preparado para ele, vocês me ensinaram muitas coisas da vida, mas ainda não sei se estou preparado para o mundo…

Mas, hoje quando sento a mesa, somos ainda nós 4, Eu (na minha casa), Cristina (na casa dela), o papai e você minha mãe… Somos 4… enquanto um de nós viver vamos ser sempre nós 4… em cada risada, em cada conquista, em cada choro… vamos ser sempre nós 4 quando eu sentar a mesa para comer por toda minha vida… em um domingo qualquer. Ah… e tomar sorvete depois, como você gostava…
Vai com Deus mãe… vai com Deus

* minha mãe faleceu dia 13/01/2010 – vítima de enfarto devido a pressão alta